Resumo

  • Em 2002, o LACNIC começou a atender diretamente pedidos de recursos numéricos em 30 de julho, ainda sob supervisão da ARIN. Recebeu o reconhecimento da ICANN em 31 de outubro; assinou os documentos de transferência em 11 de novembro; a mudança de autoridade entrou em vigor no dia 18. Raúl Echeberría assumiu definitivamente a direção em 15 de novembro.
  • O primeiro escritório tinha cerca de 13 m². A ARIN transferiu US$ 146.985,31 durante o ano; o NIC Brasil forneceu engenharia, sistemas, equipamentos e pessoal; o NIC México apoiou formação e reuniões. A sede pequena funcionava porque o trabalho estava distribuído entre instituições que sabiam quais tarefas cabiam a cada uma.

Uma placa em Montevidéu, um motor em São Paulo

O relatório anual de 2002 mede o primeiro escritório do LACNIC com uma precisão deliciosa: aproximadamente 13 metros quadrados. A entidade sublocou o espaço em maio, dentro de uma empresa de tecnologia em Montevidéu. Compartilhava instalações, tinha telefone próprio e conexão à Internet. Até quatro pessoas chegaram a trabalhar ali ao mesmo tempo. O registro para a América Latina e o Caribe podia ser encontrado por endereço postal; grande parte de sua capacidade estava espalhada.

O departamento de engenharia do NIC Brasil, em São Paulo, desempenhava na prática essa função para o LACNIC desde o começo. Frederico Neves o dirigia e atuava como responsável técnico do novo registro. O NIC Brasil forneceu equipamentos, hospedagem, pessoal, aplicativos e adaptações em seu sistema de registro. O relatório avaliou a contribuição de 2002 em cerca de US$ 175 mil. Havia servidores e gente trabalhando enquanto Montevidéu ainda procurava espaço para as mesas.

Raúl Echeberría presidia o conselho do LACNIC durante a implantação. Em abril, o próprio conselho lhe confiou interinamente a direção executiva. A nomeação definitiva como diretor executivo e CEO veio em 15 de novembro. Nesse intervalo, ele assinou pela entidade o plano de transição com a ARIN, acompanhou o início do atendimento sob supervisão e viu a ICANN reconhecer o novo registro. O cargo apareceu formalmente depois que o trabalho já havia ocupado o calendário.

O arranjo técnico pedia uma divisão clara de responsabilidade. O relatório afirma que o conselho e a direção do LACNIC mantinham o controle das funções realizadas por terceiros. A engenharia emprestada resolvia a urgência de colocar um serviço de pé; as decisões e a prestação de contas chegavam à entidade que recebia os membros. Echeberría tinha de conhecer tanto o sistema em São Paulo quanto a mesa em Montevidéu. O organograma cabia em uma folha; a operação atravessava uma fronteira.

O registro começou antes do aplauso

É fácil guardar 31 de outubro de 2002, data do reconhecimento da ICANN em Xangai. A memória do primeiro exercício registra um começo anterior: em 30 de julho, o LACNIC passou a atender diretamente o serviço de registro, sob supervisão da ARIN. A assinatura dos documentos que confirmaram a transferência ocorreu em 11 de novembro; a autoridade passou efetivamente em 18 de novembro. O dia 15, da nomeação de Echeberría, caiu entre os dois marcos finais. Os calendários da empresa, dos arquivos e do dirigente se cruzaram naquela semana.

O plano conjunto de junho descreveu uma escada de tarefas. Primeiro, pedidos ainda entravam por formulários da ARIN; o LACNIC os avaliava e a ARIN decidia a alocação. Depois, os pedidos passaram a chegar diretamente ao LACNIC. Sua equipe fazia a determinação, com uma segunda opinião da ARIN antes da conclusão. A revisão adicional terminaria com a transferência operacional completa. Cada degrau aumentava o trabalho e a autoridade do registro novo, preservando para o requerente uma resposta sobre quem decidia naquele momento.

Os registros exigiam percurso próprio. Arquivos correntes e históricos, documentos contábeis e administração do DNS reverso tinham prazos e instrumentos distintos. Os arquivos eletrônicos precisavam ser identificados por nome e data, acompanhados de material de verificação; os papéis, numerados e copiados; as zonas de DNS reverso, discriminadas por números de série. Cartas registrariam a passagem de responsabilidades. Uma solenidade poderia anunciar que o registro estava pronto. Um arquivo com recibo permitiria descobrir, anos depois, de onde veio determinada informação.

Os técnicos encontraram diferenças entre as estruturas das bases de dados da ARIN e do LACNIC. Questões de formato e qualidade chamaram colegas de finanças, membros e registro para a conversa. Faz sentido: um campo migrado pode aparecer numa fatura, no vínculo de uma organização a seus recursos ou numa resposta pública de consulta. A migração não acabava quando os bytes chegavam ao destino. Echeberría presidia uma instituição que precisava compreender o conteúdo que assinava como recebido.

O orçamento também cruzou a fronteira

Em 7 de abril, o conselho aprovou US$ 150.411,75 em despesas previstas para 2002. Segundo o relatório anual, a ARIN transferiu US$ 146.985,31 ao LACNIC naquele ano, por um acordo de repartição da receita ligada à região. A receita anual total chegou a US$ 225.201,31. A diferença entre orçamento de gasto, dinheiro transferido e receita recebida é o começo da história financeira; os números não competem pela mesma legenda.

O NIC Brasil e o NIC México aparecem em outra linha: contribuições em trabalho e recursos avaliadas, respectivamente, em cerca de US$ 175 mil e US$ 70 mil. O primeiro forneceu a base de engenharia, equipamentos, hospedagem e pessoas. O segundo apoiou formação, desenvolvimento de políticas, deslocamentos e pagou praticamente toda a reunião LACNIC III, realizada em novembro na Cidade do México. O valor dessas contribuições ajuda a entender o custo real de construir o serviço; não entrou como dinheiro livre no caixa do pequeno escritório.

O relatório permite ver o que Echeberría administrava. A ARIN ainda supervisionava etapas do registro e enviava recursos financeiros. O NIC Brasil executava trabalho técnico. O NIC México apoiava o espaço onde regras seriam discutidas. O conselho aprovava despesas e cargos. O novo diretor precisava garantir que o membro recebesse um serviço com nome e responsável próprios, ainda que várias mãos o mantivessem funcionando.

Um conselho poderia ter esperado por prédio, equipe e sistema inteiramente internos antes de abrir as portas. O LACNIC escolheu começar com uma plataforma já existente e ajuda declarada. A escolha ganhou tempo e criou uma dependência que precisava de controle. Os primeiros contratados vieram por função: Irene Suffia entrou em abril para a contabilidade; Adriana Rivero em julho para o atendimento aos membros e a secretaria; Pablo Allietti em novembro para apoio técnico. O relatório lista seis empregados no fim do ano, dois deles nas instalações cedidas pelo NIC Brasil em São Paulo.

Era uma equipe com mais de um CEP e uma só responsabilidade diante dos membros.

Ricardo e a fila dos números

Ricardo Patara foi, durante grande parte do ano, o único empregado dedicado continuamente ao serviço de registro. O relatório contabiliza 79 solicitações IPv4 aprovadas, equivalentes a 2.581 blocos /24, duas alocações IPv6 /32 e 86 ASN. O volume mostra o serviço em atividade enquanto as peças institucionais ainda se encaixavam. Cada pedido exigia um registro correto, uma regra aplicada e um caminho para corrigir dúvidas.

Os membros herdados da região antes atendida pela ARIN também precisavam de continuidade. À medida que os dados eram transferidos, o LACNIC reconhecia seus direitos de membro juntamente com os das organizações que recebiam novos recursos. Um registro pode copiar endereços e ainda deixar o titular sem voz ou sem interlocutor. O relatório mostra a ficha e a relação institucional viajando juntas. Para quem dependia de um bloco de endereços, a pergunta prática era: a quem escrevo amanhã?

Rivero cuidava das informações sobre organizações e representantes, trabalhava no site e apoiava a reunião de novembro. Sua área organizou a primeira eleição pública de representantes regionais para o ASO Address Council. O site publicava novidades em espanhol, inglês e português quase ao mesmo tempo. Essa rotina ajudava pessoas de uma região extensa a encontrar formulários, avisos e decisões atuais. O sistema técnico precisava entregar registros; o atendimento precisava fazer esses registros valerem na vida do membro.

Em LACNIC III, quatro grupos de trabalho levaram à aprovação das primeiras políticas próprias. Cerca de cem pessoas participaram. Echeberría havia contado mais de cem numa ocasião bem diferente: após o reconhecimento em Xangai, os fundadores convidaram trinta pessoas para comemorar num bar de hotel, e apareceu uma multidão. Em seu discurso de dez anos, ele relembrou os anfitriões juntando dinheiro e cartões para pagar a conta. Em novembro, o encontro sustentado pelo NIC México pagava outra conta: a de escrever regras que continuariam quando a festa terminasse.

O escritório alcançou o tamanho do trabalho

A sala de 13 metros quadrados deveria durar até março ou abril de 2003. A economia ao longo de 2002 permitiu antecipar a mudança. Em 19 de dezembro, o LACNIC abriu uma área alugada de cerca de 140 metros quadrados, com quatro setores e sala de reuniões. A superfície cresceu mais de dez vezes. O resultado fazia sentido depois de meses atendendo pedidos, contratando pessoas, migrando arquivos e recebendo membros. O novo espaço tinha funções para abrigar.

As despesas fecharam em 100,07% do orçamento aprovado. O relatório informa que um auditor profissional examinou as contas sem ressalvas e que o órgão de controle da entidade deu parecer favorável. Na história do bar, os organizadores resolveram uma surpresa com dinheiro e cartões pessoais. Na história do registro, as entradas, os gastos e as contribuições de parceiros ficaram descritos com seus próprios nomes. A primeira rendeu uma boa anedota; a segunda permitiu preparar o exercício seguinte.

Echeberría aparece nos dois quadros. Foi o presidente que assinou o plano com a ARIN e o CEO que assumiu antes da entrada em vigor do último ato. A operação também tinha a assinatura diária de Patara, Neves, Suffia, Rivero e das equipes parceiras. O que o diretor ajudou a erguer podia, ao final do ano, explicar de onde vinha um recurso, quem tinha processado uma solicitação, qual equipe mantinha o sistema e onde o membro encontrava a instituição. Treze metros quadrados bastaram para começar. As respostas precisaram de muito mais gente.