Resumo

  • Orlando E. Martínez-Durive e quatro coautores compararam a demanda por serviços móveis com os votos por partido em 4.102 municípios urbanos e suburbanos da França nas eleições europeias de 2019 e 2024. Em 2024, acrescentar essa demanda ao modelo socioeconômico elevou em termos relativos 28,23% a correlação média com os votos, calculada sobre todos os partidos, segundo o artigo original apresentado no IMC 2026.
  • Os dados vieram de uma única operadora francesa e o tráfego bruto segue sob NDA. A equipe publicou um conjunto de dados curado e o código de análise. Na RIPE 93, Martínez-Durive convidou outras redes e pesquisadores a construir uma medição que não dependa das APIs das plataformas.

Uma plataforma pode desligar sua API. O telefone continua usando uma rede. Foi por esse segundo caminho que Orlando E. Martínez-Durive estudou as eleições francesas: contou a demanda por serviços móveis nas antenas e comparou o mapa de uso com os resultados divulgados por município.

A pesquisa usou dados de duas marcas de uma grande operadora que compartilhavam a mesma infraestrutura. A base representava 31,9% do mercado móvel francês em 2019 e 31,5% em 2024. Antes de cada votação, os pesquisadores mediram o volume de dados de 22 e depois 27 serviços, entre eles redes sociais, notícias, mensagens e streaming. Sondas da rede classificaram os bytes por serviço a cada minuto com classificadores proprietários de inspeção profunda de pacotes (DPI). A equipe juntou esses valores à renda, ao desemprego e à distribuição etária e modelou a fatia de votos dos partidos com regressão de Dirichlet.

Os classificadores rodam na rede de produção da operadora, mas o método interno e a precisão validada por serviço ficam sob sigilo comercial e NDA; a equipe não conseguiu auditar essa camada de forma independente.

O mapa exigiu uma escolha. A operadora não divulgou o alcance exato de cada antena, então a equipe usou células de Voronoi para estimar como a demanda se distribuía entre os municípios. O recorte ficou em 4.102 áreas urbanas e suburbanas, com cerca de 66% dos eleitores registrados e mais de 70% da demanda móvel. As medições cobriram a semana anterior a cada eleição; nos dias úteis, a janela foi das 20h às 7h, quando os moradores tinham maior chance de estar em casa.

Em 2024, em comparação com o modelo baseado apenas em indicadores socioeconômicos, acrescentar a demanda móvel trouxe um ganho relativo de 28,23% na correlação média com os votos por partido, calculada sobre todos os partidos. O resumo do artigo associa maior demanda de Facebook e TikTok ao voto de direita; notícias on-line, Twitter e Instagram aparecem ligados ao voto de centro ou progressista. A análise é municipal. Nenhum registro de voto individual alimenta o modelo, e a combinação de serviços de um município não revela como uma pessoa votou.

Os volumes agregados não distinguem o uso direto da sincronização em segundo plano nem revelam o conteúdo exibido dentro do aplicativo. Para testar qual veio primeiro, seria preciso comparar municípios antes e depois da chegada ou da interrupção do serviço, causada por uma mudança independente da composição dos eleitores.

A trajetória de Martínez-Durive passa pela mobilidade humana e pela operação das redes. Sua biografia na IMDEA Networks informa que ele estudou ciência da computação na Universidade de Havana e pesquisou a mobilidade em Cuba com dados de celular no mestrado. No doutorado em engenharia telemática pela Universidade Carlos III de Madri, reuniu fenômenos sociais e operação de rede no mesmo tema; o registro oficial da tese conserva esse título. O perfil também registra pesquisa de eficiência energética em redes móveis na Telefónica e o uso dessas redes como sensores de eventos sociais.

Esse ponto de observação pode continuar útil quando uma plataforma altera ou retira sua API. Mas o acesso aos dados não some; muda de dono. O artigo diz que o tráfego bruto permanece sob acordo de confidencialidade, enquanto uma versão curada dos dados e o código estão abertos. A medição fica fora da plataforma e ainda depende da operadora que controla a rede.

Na RIPE 93, Martínez-Durive convidou pesquisadores, operadoras móveis, provedores de internet e IXPs a colaborar. A proposta é reunir vários pontos de medição para observar a vida digital sem depender de APIs que as plataformas podem retirar. A apresentação ainda não diz quem guardaria um conjunto compartilhado, como as operadoras alinhariam a classificação dos serviços ou quem poderia consultar e publicar os resultados. Falta essa regra de acesso para saber se a iniciativa pode prestar contas ao público.

Uma primeira especificação comum poderia fixar as categorias de serviço, o período de medição, a unidade geográfica, a descrição da cobertura e os direitos de publicação. Cada rede manteria extensões locais e escolheria se participa. A próxima prova não é uma correlação maior calculada sobre a mesma operadora. É uma comparação reproduzível com uma segunda rede.

As plataformas controlam suas APIs. A rede de observação depende de quem define as sondas, as categorias e as condições de divulgação. Martínez-Durive mostrou o que um operador pode acrescentar ao mapa. Agora falta saber se outros vão compartilhar o suficiente para que esse instrumento também possa ser auditado.