Resumo

  • A OCDE recebeu 42 respostas consolidadas sobre práticas dos governos centrais ou federais vigentes em 1º de janeiro de 2026.
  • 26 de 40 respostas citam a redução de regras internas; 30 de 40 apontam automação de tarefas, inclusive com IA. São medidas relatadas, não melhorias de serviço já comprovadas.
  • A estrutura de indicadores proposta pela OCDE está em construção e não é um índice composto nem um ranking de países.

Análise

O Government Unstuck reúne 42 respostas consolidadas sobre práticas de governos centrais e federais. O relatório registra as reformas relatadas e propõe outra etapa: medir se elas mudaram o tempo de espera, o número de etapas ou a experiência de quem usa o serviço.

A pesquisa foi aplicada entre fevereiro e junho de 2026 e enviada aos 38 países membros da OCDE e a oito candidatos à adesão. Foram recebidas 42 respostas: 35 de membros e sete de candidatos. Delegados do Comitê de Governança Pública ou autoridades indicadas pelos países coordenaram uma resposta consolidada para o governo central ou federal, com políticas, práticas e arranjos em vigor em 1º de janeiro. Depois, a OCDE realizou rodadas de validação com os respondentes.

O levantamento mostra o que os governos dizem estar fazendo. Entre 40 respostas, 26 identificam a redução de regulamentos internos e da burocracia interna como medida relevante de eficiência. Trinta citam a automação de tarefas, incluindo o uso de IA. Esses números contam práticas relatadas. Eles não dizem quanto caiu o prazo de um serviço, se uma aprovação foi eliminada de forma permanente ou quantas vezes o usuário precisou apresentar o mesmo dado.

A diferença é simples e decisiva: a reforma deixa registros dentro da administração; o resultado precisa aparecer no serviço. Um novo programa, uma revisão de processo ou um sistema automatizado pode ser registrado no organograma. Para medir o que mudou, é preciso observar tempo entre solicitação e entrega, quantidade de etapas, contatos repetidos, pedidos abandonados e respostas que alteraram uma decisão pública.

A OCDE chama de “elo intermediário ausente” a distância entre condições e recursos de um lado e impactos de longo prazo do outro. O relatório organiza a medição em quatro objetivos: renovar a relação entre governo e cidadãos; simplificar governo e regulação; recuperar espaço de escolha nas finanças públicas; e passar de um governo preparado para um governo proativo. O anexo sugere medidas concretas: tempo médio entre pedido e entrega de um serviço ligado a um evento de vida, etapas e contatos necessários para concluir uma transação, e proporção de consultas seguidas por uma resposta publicada.

O texto chama esses indicadores de exemplos. A estrutura não é um índice composto para classificar países. A ideia é criar uma linguagem diagnóstica comum. O caminho proposto é gradual: acordar os resultados intermediários, mapear medidas existentes, localizar lacunas e desenvolver instrumentos comparáveis com os países. A OCDE pode coletar alguns dados diretamente; outros dependem de sistemas nacionais usando definições compartilhadas. A divisão será decidida medida por medida.

Parte dos dados já é coletada, mas isso não significa que eles influenciem decisões. O relatório diz que 29 de 31 países da OCDE coletam dados sobre a experiência de usuários. Apenas 16 de 31 relatam incorporar essa informação às decisões de melhoria dos serviços. Esses números vêm de outro conjunto de respostas, diferente da pesquisa Government Unstuck. Eles revelam o ponto cego entre receber feedback e mudar um serviço.

A Pesquisa de Confiança da OCDE de 2026 oferece outra leitura, feita com cidadãos em 33 membros e cinco candidatos à adesão. Entre os respondentes dos países da OCDE, 40% relatam confiança alta ou moderadamente alta no governo nacional; 43% relatam pouca ou nenhuma confiança. Só 31% acreditam que o sistema político permite que pessoas como elas tenham voz, e 39% dizem que participar de uma consulta influencia a ação do governo. São percepções de uma pesquisa diferente. Ela não identifica quem usou um serviço automatizado específico nem compara a confiança dessas pessoas antes e depois da mudança.

Por isso o relatório propõe combinar experiência percebida, registros administrativos, comportamento observado e dados estruturais ou macroeconômicos. Cada fonte tem um limite. Percepções podem refletir acontecimentos fora do serviço. Registros administrativos contam operações concluídas, mas podem perder quem desistiu. Comportamentos mudam por fatores que o governo não controla. Comparações internacionais precisam de definições compatíveis.

Quem define e coleta os dados também é uma questão de governança. Os países participam da definição de resultados e métodos. A OCDE pode coletar certos indicadores ou coordenar padrões para sistemas nacionais. Cada medida precisa publicar seu denominador, seu recorte de serviço e seu histórico de revisão. Sem isso, países podem usar o mesmo nome para contar unidades diferentes.

A próxima publicação da OCDE deve ligar cada medida relatada a um resultado observável: prazo, etapas, reapresentação de documentos ou consultas que mudaram uma proposta. O relatório já definiu o problema. Agora precisa publicar uma série que coloque o trabalho da administração diante da experiência de quem depende dele.

Fontes