Resumo

  • A “chegada” da internet a Papua-Nova Guiné em 1997 teve vários marcos: o anúncio de uma operadora, o gateway internacional Tiare, a entrada de provedores comerciais e a publicação do site de uma universidade.
  • As fontes sustentam uma implantação em etapas, mas não estabelecem uma única data de serviço público, um primeiro ISP sem controvérsia nem cobertura nacional.

A data depende do que a palavra lançamento está nomeando.

Um trabalho preparado para o seminário Waigani de 1997 afirma que PNG Post e Telikom lançaram a internet em 12 de março. Algumas semanas depois, relata o lançamento do DataNets como provedor durante um seminário sobre internet em Port Moresby; em seguida, dois provedores anunciaram seus serviços em The National e Post-Courier. O primeiro site da Universidade de Papua-Nova Guiné teria sido lançado em 19 de agosto. Uma revista de jornalismo do Pacífico, também publicada em 1997, registra outro marco: o país teria ficado “on-line” em maio. Já um estudo regulatório posterior situa o início do serviço de internet em abril, quando Telikom lançou o gateway Tiare. Não faz sentido tirar uma média dessas datas e apresentá-la como precisão. Elas descrevem ações diferentes, e os documentos disponíveis não trazem um registro operacional contemporâneo que prove em que dia o primeiro cliente enviou um pacote para fora do país.

Uma rede nacional não se torna utilizável com um único anúncio. O transporte internacional tem de chegar a um gateway. O provedor precisa comprar ou alugar acesso a esse gateway. O cliente precisa de uma linha telefônica, um modem, um computador e dinheiro para pagar tanto a conexão quanto o serviço. Uma universidade pode trocar e-mail antes da oferta de internet ao público; um jornal pode publicar um site depois que a rede já está funcionando. Cada fato marca uma etapa real, mas nenhum substitui os demais.

A data da operadora não é a data do usuário

O texto de Nathan Kwasam para Waigani tem valor por estar próximo dos acontecimentos e registrar instituições, datas e debates públicos. Ele diz que PNG Post e Telikom lançaram a internet em 12 de março de 1997. Também situa, algumas semanas depois, o primeiro seminário de internet no Gateway Hotel, em Port Moresby, onde DataNets foi lançado como ISP. Depois do encontro, dois provedores publicaram anúncios nos jornais. O primeiro site da universidade aparece como um marco separado, em agosto.

Essa cronologia permite afirmar que um lançamento da operadora foi relatado em março. Sozinha, ela não mostra qual rota estava operante, quem podia usá-la, o que era vendido, qual era a disponibilidade do circuito internacional nem se um cliente conseguia concluir uma sessão. O próprio Kwasam expõe os limites de sua pesquisa: não havia estudo empírico sobre os efeitos da internet no país, e os provedores não forneciam de graça estatísticas de uso a pesquisadores. Portanto, a data é o relato de um evento, não um censo nacional de acesso.

A Pacific Journalism Review, também de 1997, diz que Papua-Nova Guiné ficou “on-line” em maio. Seu ponto de observação são a mídia e a publicação na web: jornais locais montavam seus sites enquanto leitores enfrentavam dificuldades de conexão. Essa experiência não equivale ao calendário de cerimônias de Telikom. Ela ajuda a explicar por que um observador do primeiro acesso público poderia escolher maio, ainda que a operadora tivesse realizado um evento antes.

O gateway entre o tronco e os provedores

Outra série de documentos aponta para abril. Em um trabalho regulatório de 2008, Lois Stanley, advogada e docente da Universidade de Papua-Nova Guiné, data de abril de 1997 o início dos serviços de internet. Ela separa os provedores varejistas do gateway: Pacific Mobile Communications (PMC), subsidiária da Telikom, operava o gateway; Telikom fornecia a capacidade no atacado; PMC vendia o acesso aos ISPs com a marca Tiare; os provedores revendiam o serviço aos usuários. Stanley enumera cinco prestadores comerciais no mercado posterior, entre eles Datec e Online South Pacific, que usava o nome Data Nets.

Esse desenho permite ler as datas por função. Março pode ser o anúncio da operadora; abril, o início do produto de gateway internacional; o seminário e os anúncios, a aparição da camada varejista; maio, o momento em que um observador descreveu o serviço como disponível on-line; agosto, um site universitário visível. O texto de 2008 é uma explicação regulatória retrospectiva; não prova que todos os componentes dessa arquitetura posterior já funcionassem da mesma forma no primeiro dia. Ainda assim, esclarece por que “Telikom lançou a internet” e “um ISP começou a vender conexões” são afirmações diferentes.

O registro da Datec no diretório de provedores do Network Startup Resource Center informa que sua ficha foi criada em 10 de maio de 1997 e a descreve como o “primeiro ISP em PNG”. A ficha foi atualizada em 2005. A data de criação é um vestígio administrativo útil: até maio, havia um registro de provedor no diretório. Ela não comprova o primeiro dia de serviço para clientes. E a expressão “primeiro ISP” é uma autodescrição preservada pelo banco de dados, não uma medição independente do primeiro tráfego. Ela convive com o relato de Kwasam de que DataNets foi o primeiro provedor lançado no seminário.

Os textos podem usar critérios diferentes: lançamento, registro, primeira oferta ou primeira entrada no diretório. Não permitem fundir Datec e DataNets numa só empresa nem eleger um vencedor sem mais provas.

A rede antes da narrativa pública

A história do Departamento de Informação e Comunicações de Papua-Nova Guiné registra que a reforma de 1996 dividiu e corporatizou a antiga Post and Telecommunication Corporation, criando Telikom PNG, Post PNG e PANGTEL. Um documento da União Internacional de Telecomunicações para a conferência de desenvolvimento de 1998 diz que Telikom foi formada em janeiro de 1997, era inteiramente estatal e tinha licença de monopólio das telecomunicações até 2002. Também afirma que o serviço de internet já havia “provado seu sucesso”.

O relatório da UIT descreve a base física: instalações internacionais em Gerehu, perto de Port Moresby; conexões com a Optus na Austrália; satélites; e uma rede doméstica que alcançava 13 províncias. Registra ainda que 85% da população vivia em comunidades rurais com acesso a apenas 4% das linhas telefônicas. Isso não mede usuários de internet. Serve, porém, de alerta contra tratar um gateway na capital como cobertura nacional. Uma conexão internacional podia existir enquanto o acesso permanecia concentrado em algumas instituições e residências urbanas.

Em 2002, Noel Mobiha, ligado à Rede de Educação e Pesquisa de PNG (ERNet), descreveu ao Network Startup Resource Center a arquitetura comercial daquele momento: Telikom controlava o transporte no atacado, PMC alugava sua capacidade e cinco distribuidores de serviço de internet a revendiam. Mobiha relatou 6 Mbps de capacidade internacional para a Austrália naquele ano, divididos entre conexões com Telstra e Optus. Esse número é de 2002, não de 1997. A utilidade do registro é mostrar que transporte, gateway e distribuição varejista eram funções distintas.

O lançamento podia preceder o público

O seminário Waigani de 1997 tratou de questões além da tecnologia. Seu relatório destacou o custo da infraestrutura e a necessidade de publicar informação produzida em Papua-Nova Guiné, inclusive nas línguas locais. Kwasam perguntou quem possuía a infraestrutura, quem podia pagar pelo acesso e quem controlava o serviço. Observou que o treinamento também podia custar caro e que os usuários precisavam aprender a pesquisar enquanto as tarifas de telecomunicações continuavam correndo.

Esse problema impede um atalho comum em histórias nacionais. Um país pode estar “conectado” porque existe uma rota internacional, enquanto a maioria não consegue usá-la. A operadora pode anunciar o serviço antes de surgirem provedores concorrentes. Um ISP pode anunciar e atender principalmente Port Moresby. Um site pode tornar a publicação local visível sem baratear nem ampliar o acesso. As fontes permitem separar essas situações, mas não fornecem uma contagem confiável de usuários em março, abril ou maio.

A história de 1997, portanto, não é uma disputa por um único dia de chegada. É uma sequência de interfaces: o anúncio da operadora, o gateway internacional, empresas que empacotam o acesso para clientes, usos acadêmicos e jornalísticos, e instituições que colocam conteúdo local na web. Reduzir essa sequência a um dia esconde o limite prático que mais importava: quem transportava o tráfego, quem podia vender uma conexão e quem tinha linha, equipamento e dinheiro para usá-la.

Fontes