Resumo

  • O backbone do RCCN combinava linhas diretas, X.25 público e conexão internacional por IP sobre X.25; não era um único circuito.
  • Segundo o relatório da FCCN, atualizações periódicas de roteamento dinâmico quase esgotaram a banda de X.25. A equipe adotou rotas estáticas adequadas à topologia em estrela.

A conexão de Portugal à Internet costuma ser resumida a um ano. O relatório de execução da FCCN, preparado em janeiro e revisto em março de 1992 sobre o trabalho de 1991, conta o que esse resumo deixa de fora: uma rede acadêmica ainda montando enlaces, rotas e regras de operação. O detalhe mais revelador é uma experiência de roteamento que não cabia na banda disponível.

Em 1990, professores e pesquisadores do Forum-IP propuseram serviços TCP/IP para o RCCN, a Rede da Comunidade Científica Nacional. A FCCN apoiou a proposta e buscou recursos para equipamentos no programa Ciência. O relatório diz que a verba cobria a compra de equipamentos, não os custos operacionais. Mesmo assim, uma equipe técnica pequena iniciou o piloto em janeiro de 1991 para aprender com a operação antes de ampliar o serviço. A experiência de campo viria antes de regras mais abrangentes.

O backbone nacional tinha uma forma de estrela, centrada no roteador gtrccn1, em Lisboa. Algumas universidades da cidade dispunham de linhas diretas. Instituições fora de Lisboa chegavam ao centro pela rede pública X.25, que transportava IP; alguns enlaces locais também usavam IP sobre X.25 porque faltavam circuitos diretos. O mapa de dezembro de 1991 registra uma configuração daquele momento, não todos os percursos ou todos os usos.

A equipe testou roteamento dinâmico sobre X.25 público. De acordo com o relatório, as atualizações periódicas de cada roteador quase consumiam toda a banda disponível e tornavam essa abordagem “praticamente impossível” naquele ambiente. O grupo passou então a rotas estáticas. A topologia lógica em estrela tornava a decisão viável: os roteadores da borda encaminhavam destinos desconhecidos ao backbone e anunciavam apenas as redes conectadas diretamente. O registro mostra uma adaptação ao custo de controle do transporte existente; não prova que rotas estáticas fossem melhores em qualquer rede nem que a capacidade de X.25 tenha aumentado.

A saída internacional era uma camada diferente. O relatório diz que o RCCN obteve conectividade IP via rede europeia IXI, também sobre X.25. O roteador da EUnet em Amsterdã conectava o serviço a outras redes IP europeias. Relações anteriores do INESC e do PUUG com a EUnet contribuíram para a escolha do parceiro. Para alcançar a NSFnet, algumas redes portuguesas podiam usar o caminho da EUnet e do PUUG; o relatório registra status “NSF connect” para redes específicas da FCCN, do Porto, de Aveiro e do INESC. Isso não significa que toda universidade ou morador tivesse a mesma saída global.

O acesso internacional tinha condições próprias. A instituição precisava solicitar autorização formal à FCCN, cumprir requisitos técnicos e administrativos e aceitar uma parte dos custos. Em uma entrevista da FCCN em 2021, o coordenador do projeto, José Legatheaux Martins, recordou uma linha X.25 subsidiada pela União Europeia, via INESC até Amsterdã, reconfigurada para usar protocolos da Internet. É uma lembrança retrospectiva; o relatório contemporâneo descreve com mais detalhe IXI, o papel da EUnet e as redes autorizadas em direção à NSFnet. João Neves, outro integrante da equipe, enfatiza a colaboração entre universidades de diferentes cidades.

A rota, portanto, reunia projeto técnico e serviço administrado: backbone em estrela, linhas diretas e X.25, roteamento estático, conexão internacional, autorização e divisão de custos. Os registros não demonstram acesso doméstico, uso universal de X.25 ou economia quantificada pela mudança. Eles mostram por que dizer que Portugal “se conectou em 1991” não explica o trabalho necessário para manter o caminho funcionando.

Fontes