Resumo

  • A tabela ordena entradas de pontos de troca pela capacidade de peering registrada para dez redes globais. Três localidades brasileiras do IX.br aparecem entre as seis primeiras, enquanto a rede distribuída do NL-IX fica em uma entrada.
  • A comparação é por localidade, não um ranking de operadores, sistemas nacionais ou tráfego. Os dados do NIC.br sobre o IX.br usam outro escopo e medem outra coisa.

O que exatamente conta como uma linha?

O resultado que chama atenção é a presença de três localidades brasileiras no topo. Mas esse número também revela como o estudo dividiu o objeto que está comparando. Gael Hernandez lista separadamente as entradas do IX.br em São Paulo, Rio de Janeiro e Fortaleza. Já o NL-IX aparece uma vez, embora o estudo o descreva como uma rede que cobre mais de oito países, 83 instalações e 12 cidades. São registros potencialmente úteis, mas com extensões geográficas diferentes.

O estudo afirma agregar dados de capacidade do PeeringDB para dez marcas de rede: Akamai, Meta, Amazon, Hurricane Electric, Cloudflare, Fastly, Microsoft, Google, Netflix e ByteDance. As três primeiras entradas são IX.br São Paulo, DE-CIX Frankfurt e Equinix Singapore. São Paulo recebe o valor de 22,8 Tbps, e o levantamento informa que três entradas brasileiras estão entre as seis primeiras. O resultado, portanto, compara a capacidade registrada para essas redes nas entradas de ponto de troca selecionadas.

Isso não demonstra que o Brasil tenha três sistemas de troca independentes e de alcance comparável. Tampouco revela que parcela do tráfego sul-americano passa por essas localidades. Transformar “três entradas brasileiras entre as seis primeiras” em uma afirmação sobre operadores ou tráfego muda a pergunta sem mudar o denominador.

A visão por localidade pode ser exatamente o que uma equipe de redes precisa. Quem avalia uma conexão em Fortaleza pode querer saber quais redes estão disponíveis ali, e não o total de todo o sistema IX.br. Um ranking local ajuda a definir onde investigar e a comparar mercados metropolitanos. Sua utilidade depende de identificar o objeto como uma entrada de troca em uma localidade, e não como toda a rede operada pela mesma organização.

A mesma tabela contém duas fronteiras

O NIC.br descreve o IX.br como um sistema distribuído por 39 regiões metropolitanas nas cinco regiões do país, com cerca de 3.800 sistemas autônomos participantes e aproximadamente 7.000 conexões. Em um comunicado de março de 2026, registrou 50 Tbit/s de tráfego agregado em 20 de março, dos quais 32 Tbit/s em São Paulo. Esses dados descrevem a abrangência do operador e uma medição de tráfego datada.

Eles não servem para validar a conta de capacidade do ranking baseado no PeeringDB. As fontes medem universos e grandezas diferentes: uma apresenta capacidade registrada para redes selecionadas em entradas de pontos de troca; a outra mede tráfego que passou pelo IX.br como um todo. Dividir um valor pelo outro não produziria uma taxa de utilização. O total do sistema tampouco informa como o tráfego das dez redes escolhidas se distribuiu entre as localidades ranqueadas.

O NL-IX mostra a assimetria pelo outro lado. O estudo conta uma entrada para uma rede descrita como presente em mais de oito países, 83 instalações e 12 cidades, com mais de 525 participantes. Uma linha pode representar uma extensão muito maior que uma cidade; três linhas do IX.br podem representar localidades de um único sistema nacional. A tabela não precisa estar errada, mas coloca na mesma lista uma visão por localidade e uma entrada que já agrega vários locais.

O texto público identifica o PeeringDB como fonte e alerta que a presença de um ponto de troca ou a capacidade de uma porta pode estar incorreta ou desatualizada. Não oferece, porém, um mapa registro a registro que permita reconstruir cada agrupamento. O modelo de conexão do PeeringDB expõe campos como rede, ponto de troca, velocidade, situação e horário de atualização. Isso descreve o registro; por si só, não mostra quais linhas Hernandez selecionou, quando os dados foram extraídos, como tratou valores ausentes ou se agrupou locais de nomes parecidos.

Capacidade registrada não é uso

A velocidade declarada de uma porta, ou a soma de capacidades de peering, não é uma observação de tráfego. Não comprova transmissão efetiva, utilização em determinado intervalo, localidade das rotas ou resiliência. O próprio estudo avisa que os dados de origem podem estar errados ou desatualizados. Um valor alto pode justificar uma investigação, mas não mostra quanto tráfego realmente passou por um local.

Isso não é motivo para descartar o PeeringDB. É motivo para documentar a comparação. Com data de extração, identificadores estáveis, regras de inclusão e método de agregação, uma base pública pode sustentar um ranking reproduzível. Sem esses elementos, o leitor pode citar o resultado publicado, mas não consegue reconstruir cada linha nem distinguir uma nova conexão de uma correção de registro ou de uma mudança na regra de agrupamento.

As instruções de participação do IX.br mostram que a fronteira entre localidades também tem efeito operacional. Um sistema autônomo pode solicitar troca de tráfego em um local, escolher um ponto físico ou uma porta compartilhada, organizar a conexão e cumprir os requisitos técnicos e de adesão. Os custos variam por localidade. São Paulo e Fortaleza representam decisões locais distintas para quem planeja interconexão, ainda que as duas façam parte do IX.br.

Análise: publicar as duas visões

A apresentação mais clara manteria o ranking por localidade e acrescentaria uma visão agrupada pela abrangência do operador, com uma regra explícita. A primeira classificaria pontos de troca locais. A segunda compararia sistemas e explicaria quais registros pertencem a cada grupo, como tratar redes distribuídas entre cidades ou países e o que fazer quando um operador mantém trocas com nomes distintos.

Cada edição deveria guardar um retrato datado, identificadores estáveis de redes e pontos de troca, a lista de registros selecionados, as exclusões e um método de agregação reproduzível. Um quadro de correspondência mostraria a passagem de registros locais para grupos operacionais. Assim, o leitor poderia alternar entre o mercado de uma cidade e a rede distribuída sem tratar as duas escalas como equivalentes.

Até que esses elementos sejam publicados, a conclusão mais segura é específica: três localidades brasileiras aparecem em posições altas neste ranking de capacidade registrada para as redes selecionadas. A tabela não comprova que o Brasil tenha três sistemas independentes do mesmo porte de seus pares, que essas localidades transportem mais tráfego ou que o país concentre a atividade regional. Cada questão exige seu próprio denominador.

Fontes