Resumo
- O primeiro período europeu de reporte contabilizou 770 centros de dados, cerca de 36% do total estimado sujeito à obrigação; a cobertura parcial e os indicadores incompletos limitam o que as médias podem demonstrar.
- A consulta sobre padrões mínimos termina em 14 de dezembro de 2026, e a Comissão pretende apresentar uma proposta legislativa no segundo trimestre de 2027. Os referenciais PUE e WUE recomendados no relatório não são limites legais vigentes.
Um piso depende do mapa
A Europa tenta responder a duas perguntas que podem aparecer juntas num rótulo, mas exigem evidências diferentes. A primeira é como tornar visíveis o consumo de energia e o uso de água dos centros de dados. A segunda é qual desempenho mínimo uma instalação deve cumprir por lei. Em 21 de setembro, a Comissão Europeia avançou com um esquema comum de classificação e abriu, em separado, uma consulta sobre padrões mínimos. As contribuições podem ser enviadas até 14 de dezembro de 2026; a meta é apresentar uma proposta legislativa no segundo trimestre de 2027. Um rótulo descreve o desempenho reportado.
Um piso legal pode mudar quais instalações investem, reformam, ampliam ou continuam operando. Tratar esses passos como uma única decisão anteciparia o que ainda está em discussão.
A primeira rodada de reporte é um mapa incompleto. A Diretiva de Eficiência Energética exige dados de centros cuja demanda de potência instalada de TI seja de pelo menos 500 kW. No primeiro período, de maio a setembro de 2024, o relatório da Comissão registrou 770 instalações — aproximadamente 36% do total estimado de centros sujeitos à obrigação. Seis Estados-membros não reportaram centro algum; cinco reportaram menos de três. Os dados foram anonimizados, portanto o público não consegue relacionar cada observação a uma instalação identificada nem reconstruir a cobertura local de forma independente.
A Comissão considera a amostra um ponto de partida útil e espera receber mais dados. É uma avaliação razoável: os primeiros retornos podem mostrar definições incompatíveis, práticas de medição frágeis e tecnologias que merecem análise. Mas a cobertura de cerca de um terço do universo obrigatório não pode representar todo o setor por conveniência. Uma média nacional baseada em poucas instalações pode resumir corretamente os registros recebidos e ainda descrever mal o parque em operação. A falta de um registro não prova desempenho ruim; tampouco comprova eficiência.
Cobertura e qualidade não são a mesma coisa
A avaliação de qualidade considerou confiáveis 70,1% dos dados reportados. Isso não quer dizer que 70,1% dos centros sejam confiáveis ou certificados. O percentual se refere a valores que passaram por verificações de plausibilidade e consistência. O número de observações também varia por indicador, porque as instalações nem sempre enviaram o conjunto completo de métricas. Cobertura e qualidade são questões separadas: um valor enviado pode ser coerente enquanto muitas instalações continuam invisíveis; uma declaração completa ainda pode conter números que precisam de validação.
Antes de usar esses valores para criar obrigações, o regulador deveria publicar o denominador de cada comparação, quais indicadores cada instalação apresentou, como tratou dados ausentes e como a amostra se distribui por tamanho, idade e localização. Sem isso, a comparação com um limite pode parecer mais conclusiva do que a base permite.
Os indicadores medem coisas diferentes. A PUE divide a energia total da instalação pela energia dos equipamentos de TI; quanto mais alta, maior o gasto com sistemas não relacionados à carga computacional. A WUE relaciona a água de entrada à energia dos equipamentos de TI. O relatório da Comissão informa uma PUE média reportada de 1,36 em 2024. Também diz que aproximadamente metade dos centros que reportaram excede uma referência PUE recomendada de 1,5 e/ou uma referência WUE recomendada de 0,4. “Exceder”, nesse caso, é apresentar um valor menos favorável.
Esses números são referências recomendadas na análise da Comissão, não limites legais já adotados.
A WUE depende especialmente do que entra no cálculo. A média ponderada de 0,58 usa dados de 458 centros com valores confiáveis e diferentes de zero. Instalações com refrigeração seca foram excluídas dessa análise. A cifra descreve esse subconjunto, mas não necessariamente a pressão hídrica de todo o parque ou de uma bacia específica. Clima, tecnologia de refrigeração, escala e disponibilidade local de água mudam a interpretação. Uma WUE baixa na média europeia não prova que um centro seja inofensivo numa região sob estresse hídrico; uma WUE alta não demonstra, sozinha, que havia uma alternativa tecnicamente e localmente viável.
O reaproveitamento de calor expõe o mesmo limite. Apenas 67 centros reportaram alguma reutilização de calor no primeiro período. A Comissão estimou que cerca de 1,8% do calor gerado foi reaproveitado, mas advertiu que a falta de dados e valores que não puderam ser totalmente verificados podem tornar a estimativa pouco representativa. Reaproveitar calor exige investimento, infraestrutura de transporte, um consumidor próximo e coincidência entre oferta e demanda. Uma regra que premie o reaproveitamento sem essas condições pode tratar geografia e infraestrutura coletiva como se estivessem inteiramente sob escolha do operador.
A obrigação precisa acompanhar o controle
O relatório reconhece um problema particular na colocalização: o operador pode não ter os indicadores completos dos equipamentos de TI controlados pelos clientes. Se a obrigação depender de dados que só o cliente pode produzir, o operador pode enfrentar sanções sem conseguir observar ou alterar o insumo medido. A resposta não é isentar todos os centros de colocalização. É criar um caminho viável para compartilhar dados, identificar quem controla cada medição e definir qual evidência vale quando os dados do cliente não podem ser obtidos.
A sequência regulatória aumenta o custo de um erro. O Regulamento Delegado (UE) 2024/1364 organiza a declaração. O novo esquema de classificação deve transformar informações reportadas em um rótulo público. Os padrões mínimos acrescentariam um limite de conformidade. Uma entrada imperfeita pode primeiro gerar uma comparação enganosa, depois um referencial distorcido e por fim uma decisão de investimento ou fiscalização.
A Nota 71 de Heng Lu, “O espelho da política”, serve aqui como método editorial, não como fonte do direito europeu: observar o instrumento para entender o que a instituição acredita poder medir e governar e depois confrontar essa ideia com a operação. A questão não é se a Comissão pode buscar eficiência energética. É se cada indicador pode ser observado, comparado e atribuído ao agente de quem se espera uma melhoria.
A página do estudo da Comissão diz que a pesquisa preparatória começou no fim de janeiro de 2026 e deve durar cerca de 24 meses, enquanto a proposta legislativa tem como meta o segundo trimestre de 2027. A diferença de calendário merece uma pergunta na consulta: o que os dois primeiros ciclos de reporte permitem decidir, e o que requer validação posterior? Isso não prova que a proposta será atrasada nem que o cronograma seja inviável. Torna a evidência provisória uma escolha importante do processo.
O que um padrão defensável deveria mostrar
A Comissão afirma que os padrões podem usar PUE, WUE, REF ou uma combinação, e que devem considerar tamanho, idade, clima e localização. Um modelo defensável publicaria o número de instalações e a cobertura de cada indicador; separaria ausência de reporte de desempenho ruim; definiria período e limites de medição; contextualizaria água com estresse local e tecnologia de refrigeração; e explicaria o tratamento de instalações novas, reformadas e antigas. Também precisaria definir como clientes de colocalização fornecem dados e permitir correção ou contestação de números e atribuições incorretas.
O padrão também deve permitir revisão. Se o limite for baseado numa primeira amostra incompleta, precisa prever uma data para reavaliá-lo com os próximos ciclos e publicar os métodos de validação. Um padrão comum da UE pode reduzir a fragmentação entre regras nacionais, como argumenta a Comissão. Mas a harmonização só tem valor se a comparação subjacente for válida. Caso contrário, os formulários serão iguais enquanto a medição de desempenho continuará desigual.
Por ora, os dados sustentam uma conclusão limitada. Os centros de dados consumiram 68 TWh de eletricidade na UE em 2024; a Comissão cita uma projeção de 114 TWh para 2030. Essa trajetória torna relevantes a eficiência e o planejamento de infraestrutura. A primeira base de dados justifica melhorar a visibilidade e preparar opções; não permite tratar toda média reportada como descrição completa do setor. O próximo teste é saber se a proposta completa o mapa antes de transformá-lo num piso legal.
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