Resumo

  • Nas dez agências examinadas em detalhe, 5.736 de 11.602 equipamentos e dispositivos de hardware cumpriam a definição de tecnologia legada usada pela auditoria. O número não cobre todo o setor público estadual.
  • Quatorze dos 18 órgãos consultados relataram financiamento parcial ou inexistente para substituir sistemas. O fundo de AU$ 326,5 milhões financia também cibersegurança, IA e outras iniciativas digitais; não pode ser abatido dos AU$ 435 milhões estimados por dez órgãos como se ambos fossem a mesma conta.

O inventário cabe numa manchete; a decisão, não

5.736 parece uma lista de compras esperando assinatura. Não é. O Auditor-General of South Australia reuniu dados de dez órgãos escolhidos para exame aprofundado, apoiado por informações de fornecedores sobre fim de vida e suporte estendido. A amostra mostra a escala de um problema entre os órgãos examinados. Ela não conta os cerca de 170 entes do governo estadual.

Em 2025, a auditoria consultou 18 grandes órgãos e selecionou dez para avaliar aplicativos, sistemas operacionais, equipamentos, bancos de dados e plataformas de virtualização. Todos os respondentes disseram ter sistemas legados; a maioria afirmou que eles sustentavam aplicações importantes. Isso torna difícil tratar o tema como exceção. Ainda assim, a proporção observada não deve ser aplicada a quem ficou fora da amostra.

“Legado” também não significava apenas “antigo”. O sistema precisava ter chegado ao fim de vida ou estar fora do suporte do fornecedor — inclusive do suporte estendido — e ainda satisfazer ao menos uma condição adicional: ser impraticável de manter ou atualizar, caro demais para continuar, exposto a risco acima do aceitável, ter utilidade de negócio em queda ou atrapalhar a estratégia de TI do órgão. A data de aquisição não explica por que o ativo foi classificado, muito menos o que fazer com ele.

Equipamento, sistema e serviço são denominadores distintos

Nas dez agências detalhadas, a auditoria classificou como legados 5.736 de 11.602 equipamentos de hardware (49%). Também contou 766 de 3.181 instâncias de sistemas operacionais (24%), 168 de 1.026 sistemas de gestão de bancos de dados (16%) e 121 de 392 plataformas de virtualização (31%). O conjunto de aplicativos cobre nove órgãos: 195 de 812 (24%). Os aplicativos de SA Health foram excluídos por causa do volume e da divisão híbrida de gestão e propriedade.

Somar os cinco grupos seria uma forma vistosa de contar a mesma dependência várias vezes. Um serviço pode depender de um servidor, de um sistema operacional, de um banco de dados e de um aplicativo; uma plataforma comum pode sustentar muitos serviços. O número de equipamentos não vira automaticamente custo de substituição. E os 49% da amostra não são 49% de todo o hardware do governo.

Mas a distribuição por camada diz algo importante: a dependência não fica num único item da planilha. Trocar um servidor pode deixar intacto o banco de dados sem suporte. Atualizar o sistema operacional pode não mudar as rotinas manuais que cercam o aplicativo antigo. A governança precisa conectar cada camada ao serviço público, ao responsável e ao plano de tratamento, ou o projeto reporta migração enquanto a operação continua presa.

O valor do fundo não é uma resposta ao valor estimado

Dez órgãos estimaram em AU$ 435 milhões o custo de atualizar ou substituir sistemas. Quatorze informaram que a verba garantida para a substituição era parcial ou inexistente. O Auditor-General não pediu comprovantes para validar as respostas; alguns órgãos precisariam de trabalho extenso antes de chegar a uma estimativa. O número representa informação declarada pelos órgãos, não um passivo estadual auditado.

O Digital Investment Fund começou com AU$ 200 milhões ao longo de cinco anos e passou a AU$ 326,5 milhões nos orçamentos de 2024–25 e 2025–26. Até o fim de abril de 2026, havia recebido 55 pedidos; 22 foram aprovados, com AU$ 225 milhões comprometidos e AU$ 113 milhões gastos. A carteira reúne projetos digitais e de cibersegurança em todo o governo. A expansão incluiu uma frente dedicada à inteligência artificial. O fundo não é uma conta exclusiva para o conjunto de sistemas pesquisados.

Subtrair AU$ 326,5 milhões de AU$ 435 milhões fabricaria um déficit. Um valor abrange iniciativas e órgãos diversos; o outro reúne estimativas de dez agências, algumas incompletas. O grau de sobreposição não foi publicado. O que falta à decisão é uma conexão verificável: qual sistema sustenta qual serviço, qual tratamento foi escolhido, quanto já está reservado e quem responde pelo período de espera.

Um sistema pode consumir o serviço sem sair do ar

O relatório descreve o Connected Client and Case Management System (C3MS), do Department for Child Protection. Implantado em 2009 para registrar e compartilhar dados sobre crianças e famílias vulneráveis, ele já estava além do fim do suporte. O órgão disse que era difícil manter as competências especializadas necessárias e que a equipe recorria a procedimentos manuais e digitava os dados mais de uma vez. A auditoria ligou as limitações à rapidez e à completude das informações usadas em decisões de alto risco.

Não é preciso inventar um apagão ou uma violação de dados, que o relatório não relata. A consequência já aparece no trabalho cotidiano: conferir registros duplicados ocupa tempo; informação incompleta torna a decisão mais difícil. A tecnologia continua ligada, mas cobra horas da equipe que deveria atender pessoas.

A página atual do fundo lista a modernização do C3MS e a substituição de eCARL e eLOG como trabalho em andamento na fase de levantamento de requisitos e análise de mercado. Não informa prazo de entrega nem percentual concluído. O relatório anual de outubro de 2026 ainda menciona o legado de TI entre os riscos operacionais, de segurança e governança do setor público. Há uma iniciativa; a saída do risco precisa de uma data e de evidência de entrega.

Uma linha comum para escolher caminhos diferentes

O Auditor-General recomendou concluir projetos atuais de atualização, avaliar formalmente os sistemas sem plano, registrar riscos e tratamentos, rever periodicamente os ativos e informar os comitês sobre andamento e risco residual. Uma ficha operacional para cada dependência deveria reunir ativo, serviço atendido, responsável, fonte e data do status de suporte, consequência da falha, controles atuais, tratamento escolhido, etapa de migração, faixa de custo e grau de confiança, verba efetivamente assegurada e próxima data de decisão.

Essa linha comum não exige uma compra única. Uma agência pode substituir; outra pode isolar, consolidar ou encerrar um sistema. O centro consegue comparar exposição e financiamento, enquanto cada órgão decide o que protege melhor seu serviço. “Sem plano” passa a ser um estado claro, com dono e prazo para a próxima decisão, em vez de um canto vazio no painel.

A próxima cifra útil não é outro fundo maior. É a proporção de dependências legadas que já têm serviço identificado, responsável, status de suporte atualizado, tratamento financiado e data de saída. Esse indicador diz se o dinheiro está comprando mudança ou apenas mantendo a conversa sobre mudança em andamento.

Fontes