Resumo

  • Cerca de 80% a 90% das contas britânicas analisadas compraram em apenas uma das cinco atividades digitais e geraram somente 0% a 5% da receita. Os 0% a 5% que compraram nas cinco responderam por 80% a 90%.
  • A concentração ajuda a explicar por que a CMA avalia um ambiente integrado de software. Ela não demonstra que todas as organizações têm a mesma dependência nem que uma medida futura funcionaria da mesma forma para os dois grupos.

Uma rubrica de software pode esconder duas formas de comprar

Para quem aprova o orçamento, um único fornecedor pode aparecer como uma só linha na planilha anual. Os dados de compras publicados pela Competition and Markets Authority (CMA) em 16 de outubro revelam uma estrutura bem diferente: a maioria das contas comprou em uma atividade, mas quase toda a receita analisada veio de um grupo pequeno de clientes que contratou as cinco.

A CMA propõe designar a Microsoft com status de mercado estratégico (SMS) em um ecossistema que inclui sistemas operacionais para PC, suítes de produtividade, software de segurança, sistemas operacionais para servidores e sistemas de gerenciamento de bancos de dados relacionais. A avaliação ainda é provisória. A consulta termina às 17h de 13 de novembro de 2026; o prazo legal para a decisão final é 13 de fevereiro de 2027. A designação abriria a porta para o regime. A proposta não presume nem conclui que houve irregularidade, e qualquer intervenção posterior teria um processo jurídico próprio.

O Anexo B analisa dados de compras de 2025 fornecidos pela Microsoft para cerca de 1 milhão a 2 milhões de contas de organizações no Reino Unido. O conjunto tratado cobre aproximadamente US$ 9 bilhões a US$ 10 bilhões nas cinco atividades. Entre 80% e 90% das contas compraram em apenas uma atividade; juntas, elas geraram de 0% a 5% da receita. O software de produtividade representou de 90% a 100% dos clientes e da receita desse grupo de atividade única. O gasto médio informado foi de cerca de US$ 200 a US$ 300 por conta.

No outro extremo, aproximadamente 10 mil a 20 mil contas — de 0% a 5% do total — compraram produtos nas cinco atividades. Elas geraram US$ 7 bilhões a US$ 8 bilhões, ou 80% a 90% da receita analisada, com gasto médio de cerca de US$ 600 mil a US$ 700 mil. Esse mesmo grupo respondeu pela maior parte da receita de cada atividade individual.

Esses valores descrevem compras por conta. Não são uma contagem de usuários, participações de mercado, termos contratuais nem custos de migração medidos. Os números divulgados estão em faixas e foram arredondados. Ainda assim, mostram por que não há um “cliente típico da Microsoft” que sirva como unidade única para a análise.

O ecossistema ajuda a explicar os grandes compradores

O argumento da CMA para agrupar as atividades vai além da tabela de compras. A autoridade descreve produtos que podem ser instalados, protegidos e administrados em conjunto, integrações e APIs nativas, fluxos de dados e identidade, aplicações de terceiros criadas para o ambiente Microsoft e acordos empresariais com descontos por volume. Nas entrevistas, clientes citaram a possibilidade de aproveitar habilidades de TI existentes, implantar com mais facilidade, reduzir o número de fornecedores, gastar menos tempo buscando e comprando soluções e integrar segurança. São ganhos operacionais concretos.

As mesmas ligações também podem encarecer a saída. Um concorrente pode precisar oferecer interfaces equivalentes, acesso a dados e telemetria, compatibilidade com aplicações, controles de identidade e garantias de segurança para substituir uma camada. O cliente talvez tenha de pagar licenças duplicadas ou perca descontos vinculados a um acordo maior. Efeitos de rede, treinamento e risco de transição pesam na decisão.

Duas constatações podem conviver. Um grupo concentrado compra nas cinco atividades, e suas interdependências são relevantes para a análise concorrencial. Ao mesmo tempo, há muito mais contas cujas compras registradas ficam restritas à produtividade. O agrupamento pode retratar como grandes clientes operam, mas não identifica por si só qual dependência técnica ou comercial reduz a escolha de cada organização, nem o que uma medida faria para as contas menores.

A metodologia também precisa acompanhar qualquer conclusão. A Microsoft entregou dados de compras por conta de 2025, incluindo vendas por revendedores; as vendas de sistemas operacionais para PC por fabricantes de equipamentos ficaram de fora. Produtos equivalentes a 20%–30% da receita haviam sido inicialmente associados a duas atividades. A CMA realocou a maior parte da sobreposição entre produtividade e segurança para uma atividade e afirma que essa opção pode subestimar as compras entre atividades. Esse detalhe importa ao usar os números para justificar uma ação futura.

A próxima etapa é comprovar cada medida

O roteiro publicado junto com a proposta planeja mais coleta de evidências; não determina qual intervenção deve ser adotada. Ele indica licenciamento de nuvem, produtos e recursos de IA nas suítes de produtividade, aplicações de colaboração e comunicação e segurança como áreas a investigar. Um problema potencial em uma área não fornece automaticamente a prova necessária para agir em outra.

Para cada medida, a pergunta precisa ser concreta: qual produto ou interface é difícil de substituir? Que recurso ou dado fica inacessível ou recebe um preço diferente? Quais clientes enfrentam a limitação? Que resultado observável indicaria que a medida deu certo? As respostas podem variar entre uma organização que compra apenas ferramentas de produtividade e uma grande empresa que combina identidade, segurança, servidores e bancos de dados.

A integração de identidade e segurança pode ser valiosa justamente porque os controles funcionam em conjunto. Abrir uma interface pode facilitar o acesso de concorrentes; ignorar autenticação, telemetria ou resposta a incidentes também pode criar risco operacional. Separar produtos pode ampliar a escolha e alterar o preço total ou o volume de suporte. O teste deve medir a abertura concorrencial e a qualidade do serviço que o cliente continuará operando.

A pesquisa qualitativa da Jigsaw, publicada em setembro, ajuda a entender como os decisores de TI entrevistados descrevem suas compras e a troca de fornecedor. Ela não é uma estimativa estatística de todos os clientes britânicos. Os dados agregados mostram concentração, mas não provam que toda conta pequena seja uma PME, que uma grande não consiga migrar ou que os preços já tenham subido. Cada afirmação exige evidência própria.

O que as equipes de compras podem preparar

As organizações podem melhorar sua visibilidade antes da decisão final. As áreas de compras e tecnologia podem separar os gastos pelas cinco atividades, listar os produtos agrupados, distinguir preços avulsos de descontos empresariais e registrar as dependências de API, identidade, segurança, dados e aplicações que pesariam em uma saída. Uma estimativa de migração deve incluir treinamento, testes, operação paralela e análise de segurança, além da licença.

Esse inventário mostra onde a integração realmente reduz custos de operação e onde um desconto ou uma dependência técnica restringe a escolha prática. Também oferece ao regulador evidência mais precisa do que a afirmação genérica de que um fornecedor é indispensável ou fácil de substituir.

O ecossistema proposto pela CMA é útil para entender como clientes de alto gasto combinam software. A próxima decisão deve manter em vista a população muito maior que compra uma atividade e associar cada possível medida a um ponto de controle, um efeito sobre o cliente e um risco operacional. A consulta termina em 13 de novembro; o prazo legal para a decisão de SMS é 13 de fevereiro de 2027. Qualquer intervenção ficaria para uma etapa posterior, baseada em evidências.

Fontes