Resumo

  • Acrescentar peers BGP não garante novas perspectivas na mesma proporção. A análise da RIS publicada em 2019 comparou os enlaces entre sistemas autônomos visíveis nos caminhos e reconheceu que o conjunto de redes voluntárias era uma amostra com viés desconhecido.
  • Em 2023, a equipe da RIS descreveu uma mudança: sair da maximização do número de peers e selecionar conexões considerando redundância, custos de armazenamento e processamento e cobertura do núcleo e de países. Essa escolha define parte da evidência disponível; não produz um levantamento completo do roteamento mundial.

Um peer novo pode repetir o que já se vê

Um coletor BGP não recebe uma tabela universal de todos os roteadores da Internet. Ele aprende rotas das redes que mantêm sessões com seus route collectors. Cada sessão traz uma vista particular do plano de controle. É uma evidência útil, mas parcial.

Por isso, contar rotas não basta para avaliar o próximo peer. Se ele enxerga caminhos que vários peers existentes já mostram, o conjunto armazenado cresce sem que a perspectiva da RIS se amplie na mesma medida. Outro peer pode revelar enlaces ou caminhos ainda ausentes. Volume de dados e diversidade de observação estão relacionados, mas medem coisas diferentes.

Em 2019, Emile Aben examinou os enlaces direcionados entre sistemas autônomos que apareciam nos caminhos dos peers com tabelas completas. A análise usou o coeficiente de Jaccard para medir a semelhança entre conjuntos de enlaces: se dois peers veem os mesmos enlaces, a semelhança se aproxima de 100%; com menos sobreposição, o valor cai. O método não estabelece uma classificação universal de redes. Ele pergunta algo mais operacional: quanto da estrutura já observada se repete entre os peers disponíveis?

Em alguns pontos de troca, os peers viam topologias muito semelhantes; acrescentar mais conexões ali poderia trazer pouca diversidade. Em outros, as vistas diferiam mais. O artigo também expôs o limite básico do sistema: a RIS não coleta BGP de todos os roteadores, e os operadores participam voluntariamente. A participação voluntária reduz barreiras, mas forma uma amostra por conveniência cujo viés não é conhecido. Estar incluído não equivale a representar todas as redes.

A posição do coletor faz parte da evidência

Route collectors instalados em pontos de troca costumam observar as rotas dos peers conectados ali. Essa proximidade pode tornar os dados estáveis e rápidos, mas também prende a observação às redes daquele ambiente. Um coletor multihop alcança redes mais distantes e pode ampliar o conjunto de perspectivas; a análise de 2019 advertiu que essas sessões talvez sejam menos estáveis, confiáveis ou oportunas. Naquele momento, Aben citou dois coletores multihop: RRC00 e RRC24. Esse número descreve a configuração de 2019, não a atual.

“Mais peers” nunca foi uma meta neutra. O próximo peer poderia trazer caminhos diferentes, repetir os já vistos ou aumentar o custo de coleta e retenção. Com o crescimento das tabelas e das atualizações BGP, guardar cada feed se tornou uma decisão de medição e de orçamento.

Em um texto de 2023, Aben explicou que a RIS deixou uma estratégia aberta, voltada a maximizar o número de peers, e passou a uma abordagem seletiva. A equipe mencionou retornos decrescentes: cada novo peer podia trazer alguma informação, mas a parcela inédita diminuía conforme as vistas ficavam parecidas. Dados redundantes ainda exigem processamento e armazenamento. Um serviço que guarda registros para pesquisa precisa escolher quais observações adicionais justificam esse custo.

Essa é uma decisão sobre o desenho do serviço, não uma avaliação das redes que ficam de fora. A RIS observa o roteamento; a ausência de uma rede na lista de peers não altera os anúncios dessa rede nem determina se seu tráfego pode circular. Ela altera o que esse conjunto de dados consegue mostrar.

Medir cobertura exige escolher uma aproximação

A equipe da RIS descreveu duas formas de buscar uma amostra mais útil. Uma era ampliar a visibilidade do núcleo da Internet por meio de peers em redes de nível 1. A outra era buscar diversidade por país ou tipo de rede. Como os dados disponíveis permitiam uma análise por país, a equipe comparou o número médio de saltos entre sistemas autônomos desde a RIS até redes de cada país.

Na comparação publicada em 2023, os países escolhidos para o exercício apareciam mais próximos da RIS nesse indicador do que na medição anterior; um deles permanecia relativamente distante. Isso mostra uma mudança nos saltos AS observados para aqueles casos. Não prova que a RIS represente as redes, os usuários ou o tráfego de cada país.

A distância em saltos AS é medida no grafo de roteamento observado, não no mapa geográfico. Redes do mesmo país podem depender de upstreams e acordos de peering diferentes. O mesmo número de saltos também pode surgir de estruturas muito distintas. Se a amostra original for estreita, uma média nacional pode esconder redes que a RIS não observa. O indicador pode ajudar a encontrar peers que ofereçam outro caminho; não certifica que a amostra seja completa.

Essa distinção importa quando alguém transforma dados da RIS em uma afirmação pública. Uma rota recebida pelo coletor prova que ela chegou por determinado peer e em certo momento. A falta de uma rota numa amostra selecionada não prova que nenhuma rede a anunciou. Uma rota observada tampouco revela, sozinha, por onde os pacotes passaram, quanto tráfego ela transportou ou como os usuários foram afetados.

A entrada aberta virou uma escolha administrada

A RIS depende da comunidade: operadores estabelecem sessões com os coletores e a RIPE NCC publica os dados por meio de ferramentas abertas. No relato de 2023, Aben disse que o formulário de solicitação de peering foi retirado como medida prática para se afastar do modelo aberto, diante do orçamento de 2024. A página atual da política de peering da RIS, consultada em 16 de outubro de 2026, informa que solicitações on-line não estão sendo aceitas “no momento”. Ela pede às redes participantes que anunciem rotas IPv4 e IPv6 a um RRC e diz que os dados BGP recebidos são registrados, armazenados e disponibilizados à comunidade da Internet.

É importante descrever essa fronteira sem exagero. A RIS continua sendo um serviço comunitário, mas entrar não se resume a preencher um formulário e ser incluído. A RIPE NCC diz que procura ativamente redes que considera valiosas para observação. Os materiais públicos explicam os objetivos e critérios gerais, mas não publicam uma fórmula completa para pontuar cada peer nem o custo marginal atual de cada conexão. Não há base para completar essas lacunas com suposições.

A atribuição a Aben também precisa de limite. A RIPE o descreve como cientista de dados e, em um perfil de conferência de 2023, como responsável pelo produto RIS. Ele assinou trabalhos sobre diversidade e seleção de peers. As fontes permitem analisar seu papel em tornar o problema de medição explícito. Elas descrevem decisões da equipe e da instituição; não dizem que ele definiu sozinho a política ou escolheu cada sessão.

Leia a amostra, não um censo imaginado

A seleção de peers pode melhorar a visão de um coletor diante de restrições reais. Ao mesmo tempo, faz com que essa visão dependa dos objetivos escolhidos. Se os critérios priorizam o núcleo, determinados países ou uma classe de rede, a amostra tende a responder melhor a essas perguntas e pode continuar fraca para outras.

Pesquisadores e operadores devem indicar de quais pontos de observação depende uma conclusão. A RIS ajuda a estudar caminhos BGP observados e suas mudanças; afirmações importantes devem ser comparadas com outros coletores, registros de roteamento ou medições ativas de alcançabilidade. Mais peers alteram as entradas do sistema; não garantem observações independentes. Uma redução da distância por país altera aquele indicador; não comprova representação de usuários.

A contribuição de Emile Aben é colocar a seleção do próprio coletor dentro da história da medição. A amostra não é uma nota de rodapé acrescentada depois do gráfico. Ela determina, em parte, o que o gráfico pode sustentar.

Fontes