Resumo

  • No primeiro trimestre do ano fiscal 2027 (encerrado em 31 de agosto de 2026), a Oracle vendeu US$ 20 bilhões em ações por meio de um programa at-the-market, emitiu US$ 25 bilhões em títulos seniores não garantidos em oito séries, gastou US$ 28,499 bilhões em capex e terminou o trimestre com aproximadamente US$ 125 bilhões de títulos a pagar e outros empréstimos, além de US$ 288 bilhões em compromissos de locação ainda não iniciados, fora do balanço.
  • A receita total cresceu 30% para US$ 19,3 bilhões, com receita de nuvem de US$ 11,6 bilhões (+62%) e infraestrutura de nuvem (IaaS) crescendo 121% para cerca de US$ 7,4 bilhões; o RPO atingiu US$ 664 bilhões.
  • O fluxo de caixa livre ficou negativo em cerca de US$ 5 bilhões, e a S&P rebaixou a Oracle de BBB para BBB- em 9 de julho de 2026, o último degrau acima do grau especulativo, enquanto a Fitch mantém BBB/estável e a Moody's Baa2/negativa.
  • Em 24 de setembro de 2026, a Oracle enviou um aviso de força maior à Blue Owl sobre o campus do Novo México (Project Jupiter), cujos US$ 18 bilhões de dívida do projeto são negociados abaixo de 90 centavos por dólar.

O trimestre encerrado em 31 de agosto de 2026 é o ponto em que o plano de financiamento anunciado pela Oracle para a expansão da OCI deixou de ser intenção e virou registro contábil. Em 1º de fevereiro de 2026, a companhia tinha comunicado um plano para levantar entre US$ 45 bilhões e US$ 50 bilhões em caixa bruto ao longo do ano calendário de 2026, dividido aproximadamente em partes iguais entre dívida e capital próprio, com um único empréstimo senior unsecured de grau de investimento no início do ano e um programa de at-the-market de até US$ 20 bilhões [4].

O que se tornou efetivo desde então: a venda de US$ 20 bilhões em ações comuns antes de comissões concluída no trimestre (uma reconstrução secundária aponta 141 milhões de ações vendidas por US$ 19,909 bilhões após custos de emissão) [1, 9]; a emissão de US$ 25,0 bilhões em oito séries de títulos seniores não garantidos com vencimentos entre 2029 e 2066, com produtos líquidos estimados em cerca de US$ 24,9 bilhões [5, 22, 21]; e um capex trimestral de US$ 28,499 bilhões, contra US$ 8,502 bilhões um ano antes — dos quais US$ 17,966 bilhões foram desembolso líquido, porque US$ 11,4 bilhões de prepagamentos de clientes com componente financeiro

significativo compensaram o total [1, 2].

Os resultados operacionais sustentam a tese de demanda que justifica o gasto: receita total de US$ 19,3 bilhões (+30%), receita de nuvem de US$ 11,6 bilhões (+62%), infraestrutura de nuvem crescendo 121% para cerca de US$ 7,4 bilhões, lucro líquido GAAP disponível aos acionistas comuns de US$ 4,7 bilhões, EPS GAAP de US$ 1,56 e EPS não-GAAP de US$ 1,92 [1]. O backlog contratado (RPO) atingiu US$ 664 bilhões após mais de US$ 30 bilhões em novos contratos de nuvem de IA, acima do consenso de US$ 630,6 bilhões do StreetAccount, com 850 MW de capacidade adicional de datacenter entregues e mais de 300.000 GPUs no trimestre [1, 2].

A diretoria reiterou a diretriz de capex de US$ 90-95 bilhões para o ano fiscal 2027, com não mais que US$ 70 bilhões de capex líquido, e a orientação de pelo menos US$ 90 bilhões de receita e US$ 8,10 de EPS não-GAAP [1, 2].

Mas a mesma divulgação deixou claro o que permanece condicional. Os US$ 288 bilhões de compromissos de locação adicionais, substancialmente todos arranjos de datacenter, não estão no balanço e em geral devem começar entre o segundo trimestre do ano fiscal 2027 e o ano fiscal 2029, com prazos de 15 a 19 anos [7, 10]. No balanço, a Oracle carrega cerca de US$ 34,6 bilhões de passivos de locação operacional e US$ 9,2 bilhões de locação financeira (uma reconstrução secundária reporta US$ 9,85 bilhões de locações financeiras e US$ 48,05 bilhões de pagamentos operacionais futuros não descontados) [9, 10].

O fluxo de caixa operacional subiu 184% para US$ 23 bilhões, mas o fluxo de caixa livre ficou negativo em cerca de US$ 5 bilhões (a CNBC calcula -US$ 5,4 bilhões contra -US$ 362 milhões um ano antes), e a companhia não ofereceu data para o retorno ao fluxo de caixa positivo [1, 2].

A cadeia que converte capex em caixa apresenta três pontos de tensão observáveis. O primeiro é o acesso ao mercado de dívida: em 9 de julho de 2026 a S&P rebaixou a Oracle de BBB para BBB-, o último degrau acima do grau especulativo, prevendo um déficit de fluxo de caixa operacional livre de quase US$ 42 bilhões no ano fiscal 2027 financiado com dívida e equity, e atribuindo o aumento da diretriz de gastos a custos crescentes de GPUs e componentes de rede [15, 16, 17].

A Moody's havia afirmado Baa2 com outlook negativo em 2 de fevereiro, reagindo justamente ao plano de equity [20, 20]; a Fitch atribuiu BBB aos títulos de fevereiro com outlook estável, projetando alavancagem EBITDA acima de 3,5x no FY2026, EBITDAR pico acima de 4x, fluxo de caixa livre pré-dividendo negativo de mais de US$ 26 bilhões no FY2026 e US$ 18 bilhões no FY2027, e emissões incrementais de dívida e capital até pelo menos o ano fiscal 2028 [13].

O segundo ponto é concentração de contraparte: a S&P descreve a OpenAI como um risco de crédito central, com aproximadamente metade dos US$ 638 bilhões de volume contratado e não entregue atribuível à OpenAI, e vê a Oracle com menos flexibilidade financeira que Microsoft, Google ou Amazon [16].

O terceiro é o timing de início das locações: em 24 de setembro de 2026, a Bloomberg News informou que a Oracle enviou um aviso de força maior à desenvolvedora Blue Owl no campus do Novo México (Project Jupiter), buscando adiar pagamentos caso o site não fique operacional em 2028, sem abandonar a posição de locatário principal; a Oracle e a Blue Owl não comentaram imediatamente à Reuters, e as ações caíram cerca de 4% no pré-mercado [11].

Segundo fonte citada pela CNA, garantir energia para o site é responsabilidade da Oracle sob o contrato, que segundo a reportagem não pode ser rescindido em nenhuma circunstância; a Blue Owl detém cerca de US$ 3 bilhões de equity no projeto, que captou US$ 18 bilhões em empréstimos de um consórcio de cerca de 20 bancos e integra o acordo da Oracle com a OpenAI; a dívida do projeto negociava abaixo de 90 centavos por dólar, e não é certo que a força maior libere a Oracle das obrigações financeiras já acordadas [12, 13].

Há ainda uma contradição em aberto que o próximo trimestre pode resolver: o comunicado de 1º de fevereiro dizia que não haveria emissão adicional de títulos durante o ano calendário de 2026 [4], enquanto a Fitch projeta emissões incrementais até o ano fiscal 2028 e o CreditSights estima cerca de US$ 70 bilhões de necessidades de emissão entre o terceiro trimestre do FY2026 e o quarto do FY2028, projetando capex subindo de US$ 21,2 bilhões no FY2025 para US$ 80 bilhões no FY2028 (cerca de 60% das vendas) e queima de fluxo de caixa livre de -US$ 25 bilhões no FY2026 a -US$ 16 bilhões no FY2028, com alavancagem líquida ajustada por locações de

3,7x no FY2028 e a ação negociando em território de BBB alto, cerca de dois degraus abaixo de seu rating [18, 13].

A Reuters, em 4 de agosto de 2026, emoldurou a Oracle como uma exceção entre as grandes empresas de software, obrigada por reservas de caixa limitadas a se endividar pesadamente e a assinar cerca de US$ 260 bilhões em locações de datacenter divulgadas no fim do ano fiscal 2026 — número desde então superado pelos US$ 288 bilhões de 31 de agosto [18, 10].

O quadro efetivo, portanto, é este: o equity e o bond foram emitidos, o capex de US$ 28,5 bilhões foi gasto, e a operação cresce 30% [1, 5, 9]. O quadro condicional inclui a fila de locações de US$ 288 bilhões fora do balanço, o restante da diretriz de capex de US$ 90-95 bilhões, a conversão de cerca de metade do RPO em vendas nos próximos 36 meses, e um fluxo de caixa positivo sem data anunciada [7, 1].

O próximo evento observável é a reunião com investidores de outubro de 2026 e os resultados do segundo trimestre em 14 de dezembro de 2026, que mostrarão se a fila de locações se estabiliza e se o crédito continua a se alargar [2].

Para o mercado de infraestrutura de nuvem, o mecanismo importa além da Oracle: um dos três principais provedores de IaaS cresce 121% financiando-se com dívida estruturalmente júnior aos passivos de subsidiárias, pré-pagamentos de clientes e leasing off-balance-sheet de 15 a 19 anos — um modelo que desloca risco para o balanço de terceiros enquanto o emissor mantém rating de grau de investimento por margem de um degrau [5, 13, 17].

Se esse modelo funciona, a capacidade de IA escala mais rápido que o fluxo de caixa de qualquer player individual; se falhar em algum elo — mercado de dívida, contraparte concentrada, ou entrega de energia — o ajuste virá por reprecificação de crédito ou por renegociação de locações, não por um único evento de default.