Resumo

  • A Birkenstock registrou €13,763 milhões de contraprestação em dinheiro a pagar aos vendedores e €21,202 milhões pela liquidação de uma conta a receber anterior à aquisição. A soma é a contraprestação total de €34,965 milhões, mas o segundo valor não foi renda adicional dos fundadores.
  • Os ativos líquidos identificáveis foram avaliados em €47,256 milhões. A diferença de €12,291 milhões virou ganho por compra vantajosa, um resíduo contábil da data de aquisição, não caixa ou lucro operacional recorrente.
  • O estoque adquirido era de €39,501 milhões, 83,6% dos ativos líquidos identificáveis. A margem do antigo distribuidor embutida nesses produtos tirou 70 pontos-base da margem bruta do segundo trimestre fiscal e 20 pontos no terceiro.
  • No terceiro trimestre, a receita da APAC avançou 18%, para €74,745 milhões, enquanto o EBITDA ajustado ficou praticamente estável em €20,129 milhões e a margem caiu de 31,9% para 26,9%.

Há uma razão para a compra da Birkenstock Australia parecer custar €13,8 milhões em uma passagem e €35,0 milhões em outra. A primeira cifra responde quanto era devido aos vendedores. A segunda inclui o que aconteceu com uma dívida comercial que já existia entre a fabricante e sua distribuidora.

A empresa adquirida não era apenas um contrato de distribuição. Tinha cerca de 60 funcionários, duas lojas próprias em Melbourne, uma loja monomarca parceira em Sydney, comércio eletrônico e mais de 300 parceiros B2B. Sua receita nos doze meses até junho de 2025 chegou a AUD 88,6 milhões. Ao comprar 100% das ações em 23 de outubro de 2025, a Birkenstock internalizou o canal e também suas contas.

O valor dos vendedores é a parte menor da contraprestação

A alocação final do preço apresenta €13,763 milhões como dinheiro a pagar aos vendedores. Em seguida, traz €21,202 milhões como liquidação de contas a receber da Birkenstock Australia. Juntos, os valores chegam a €34,965 milhões. Pelas contas da BTW, o primeiro componente representa 39,4% e o segundo, 60,6%.

Isso não significa que os vendedores tenham recebido a soma inteira. Antes da aquisição, a Birkenstock vendia estoque para a distribuidora. A fabricante carregava uma conta a receber; a companhia australiana, a obrigação correspondente. Depois que as duas entraram no mesmo grupo consolidado, essa relação deixou de ser externa e foi eliminada.

O IFRS 3 trata a liquidação de relações preexistentes separadamente da combinação de negócios. Não houve ganho nem perda porque o valor contábil do recebível representava substancialmente o valor justo. Os €21,202 milhões, portanto, integram a ponte de contraprestação sem se transformarem em um segundo pagamento aos fundadores.

O fluxo financeiro teve outra cronologia. Na conclusão da transação, foram pagos AUD 9 milhões, ou €5 milhões. A segunda parcela, de AUD 12,5 milhões, equivalente a €7,6 milhões, foi paga em 22 de abril de 2026. Outros AUD 3 milhões, €1,8 milhão, foram colocados em garantia e deverão ser liberados em 22 de abril de 2027 na medida em que não forem usados.

O relatório anual de 2025 havia indicado um preço-base preliminar de AUD 27 milhões, €15,1 milhões. O texto dizia expressamente que capital de giro e ajustes de preço estavam fora daquele número. O preço final de AUD 24,5 milhões, €13,8 milhões, não tem a mesma fronteira. Chamar a diferença de desconto negociado seria afirmar algo que os documentos não demonstram.

A quarta conta fecha em €12,291 milhões

O valor justo dos ativos líquidos identificáveis foi de €47,256 milhões. Depois da contraprestação de €34,965 milhões, restaram €12,291 milhões. A Birkenstock reconheceu o valor como ganho por compra vantajosa em outras receitas.

A companhia relacionou o ganho principalmente à intenção de Marcel e Manuela Goerke de sair do negócio ao se aposentar, priorizando uma sucessão ordenada e a continuidade da operação de distribuição exclusivamente afiliada. Essa motivação pode explicar a estrutura do acordo, mas não prova liquidação forçada ou dificuldade financeira.

O ganho tampouco é dinheiro recebido. Não é margem operacional que aparecerá de novo no próximo trimestre, nem evidência de que todos os ativos poderiam ser vendidos pelo valor justo atribuído. É a diferença apurada na data da aquisição entre ativos líquidos identificados e contraprestação reconhecida.

A alocação foi finalizada no terceiro trimestre, com apenas pequenos ajustes em itens de capital de giro em relação ao cálculo preliminar. A ponte contábil se tornou mais firme. O desafio econômico continuou sendo converter estoque e operação em vendas e caixa.

O estoque carregou o modelo antigo para dentro do grupo

O estoque representava €39,501 milhões, ou 83,6% dos ativos líquidos identificáveis. Era também 2,87 vezes o dinheiro devido aos vendedores. O múltiplo mostra a intensidade de capital de giro, não que mercadoria com valor garantido tenha sido comprada por uma fração do preço.

Antes da transação, a Birkenstock vendia produtos para uma distribuidora independente e aplicava a margem daquele elo. Depois, os itens continuaram fisicamente na empresa australiana, agora uma subsidiária. Quando foram vendidos a clientes externos, a antiga margem de distribuição apareceu no custo das vendas consolidadas.

O efeito reduziu a margem bruta em 70 pontos-base no segundo trimestre fiscal de 2026 e em 20 pontos-base no terceiro. Uma aplicação mecânica às receitas do grupo produz aproximações de €4,33 milhões sobre €618,333 milhões e de €1,44 milhão sobre €719,527 milhões. São estimativas da BTW com percentuais arredondados, não despesas exatas divulgadas pela empresa. Somá-las como um custo acumulado preciso seria incorreto.

A queda de 70 para 20 pontos-base sinaliza que o estoque anterior à aquisição avançou pelo canal. Não revela a quantidade remanescente, a margem dos produtos repostos, a necessidade de descontos ou o trimestre exato em que o ajuste terminará. O antigo distribuidor desapareceu juridicamente da fronteira do grupo antes de desaparecer da margem.

A APAC ganhou escala e perdeu margem

No terceiro trimestre, a receita da APAC subiu de €63,178 milhões para €74,745 milhões. O EBITDA ajustado caiu apenas €55 mil, de €20,184 milhões para €20,129 milhões. Com o lucro quase parado e a receita maior, a margem recuou 500 pontos-base, de 31,9% para 26,9%.

Em nove meses, a receita cresceu 22%, para €193,624 milhões, e o EBITDA ajustado aumentou 11%, para €57,253 milhões. Ainda assim, a margem caiu 310 pontos-base, para 29,6%. A Birkenstock apontou tradução cambial desfavorável, sazonalidade da aquisição e, no acumulado, mudança de mix geográfico.

Não é possível atribuir toda a perda de margem à Austrália. Também não é correto tratar toda a receita adicional como crescimento orgânico. A internalização do distribuidor mudou o ponto em que as vendas entram na demonstração e trouxe custos locais, estoques, lojas, pessoal e contratos de atacado para dentro do segmento. Controle maior pode significar receita maior e, ao menos na transição, uma taxa de margem menor.

A contribuição informada não resolve a questão. A Birkenstock Australia gerou €37,9 milhões em vendas e €23,4 milhões em resultado desde a conclusão até junho. Se tivesse sido adquirida no primeiro dia do ano fiscal, o período anterior acrescentaria apenas €4,3 milhões de vendas e €0,3 milhão de resultado.

O relatório, porém, não reconcilia a composição dos €23,4 milhões. Não esclarece ali se o ganho por compra vantajosa de €12,291 milhões está incluído, excluído ou compensado por outros efeitos. Dividir esse subtotal pelas vendas e chamá-lo de margem recorrente criaria uma certeza que a fonte não oferece.

A leitura útil preserva cinco comprovantes: dinheiro dos vendedores, liquidação do recebível, contraprestação IFRS, valor justo dos ativos líquidos e conversão do estoque. Os quatro primeiros explicam a aquisição. O quinto mostra por quanto tempo a estrutura antiga continua afetando os resultados novos.

Fontes